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Cuba: o destino favorito dos americanos durante a Lei Seca

História

⍟ Os Estados Unidos não foram os únicos afetados pelas mudanças impostas na Lei Seca (1919 – 1933). Cuba tornou-se o destino turístico favorito dos americanos no período e estimulou a coquetelaria na ilha mais charmosa do Caribe

Quem quer, dá um jeito. Essa frase tão popular na cultura brasileira não poderia descrever melhor a explosão do turismo em Cuba após a promulgação da Lei Seca norte-americana, ou Prohibition, em janeiro de 1919. A lei determinava a proibição da produção, venda e consumo de bebidas alcoólicas em todo o país, com duras penas a aqueles que a desobedecessem. Tendo que escolher entre viver na ilegalidade ou buscar novos horizontes, os norte-americanos decidiram unir o útil ao agradável: bebericar seus cocktails diretamente de Cuba, um verdadeiro paraíso tropical, que fica ‘logo ali’.

A viagem não era longa: pouco mais de 180 km separavam a ilha de Key West, no Sul da Flórida, do solo cubano. O trajeto podia ser feito de forma bastante rápida, via cruzeiros ou voos comerciais, que aos poucos ganhavam espaço entre os americanos mais endinheirados. Ao chegar em Cuba, sentiam-se de férias: sol, calor, diversão, bons hotéis e cocktails a perder de vista.

Essas viagens, por outro lado, não eram acessíveis a todos. Enquanto não podiam visitar bares e comprar bebidas para consumir em casa, outros americanos criaram bares ‘secretos’ para escapar da fiscalização, os speakeasies. Nesta matéria, vamos explorar o mundo da coquetelaria e turismo em Cuba, mas você pode conhecer mais detalhes sobre o contexto e o desenrolar da Lei Seca em solo americano nesta matéria:

A Lei Seca nos EUA: uma história passada a limpo

CONTRABANDO NA ILHA

Quem já assistiu algum filme ou série sobre a Lei Seca, com certeza já viu cenas de garrafas de bebida chegando em solo americano por meio de pequenas (e ilegais) embarcações. Cuba foi, por algum tempo, a principal ponte que ligava os destilados internacionais ao mercado dos Estados Unidos durante o período. Produtores europeus de scotch whisky, gin, champagne, licores e outras bebidas enviavam as mercadorias para a ilha, que em seguida partiam em pequenos barcos para a costa americana, graças a empresários americanos que se beneficiaram economicamente da proibição. Esse cenário faz parte do enredo da série The Boardwalk Empire.

Os barcos ilegais iam de Cuba para Key West e, de lá, para a costa de estados como Virginia, Flórida e Texas. A historiadora Lisa Lindquist Dorr destrinchou este esquema de contrabando no livro ‘A Thousand Thristy Beaches’, ou em português, Mil Praias Sedentas. O livro recebeu este nome porque, segundo ela, embora as praias cubanas recebessem as bebidas do exterior, nada permanecia nelas. Tudo ia para o mercado americano.

Segundo sua pesquisa, só nos três primeiros meses de 1923, a Escócia enviou mais de 46 mil garrafas de whisky para Cuba. Ela escreve no livro: “O contrabando de bebidas alcoólicas representou um comércio de aproximadamente 500 mil caixas de álcool; por mês, ou cerca de US$ 80 milhões por ano. O governo cubano arrecadou taxas de exportação em grande parte deste comércio”.

CRESCIMENTO DOS BARES E TURISTAS

Com o endurecimento da fiscalização por conta da Prohibition, os norte-americanos criaram um novo mercado: o turismo etílico. Se Cuba já era um destino sofisticado para as férias de verão, com boas praias, arte e cultura, com a Lei Seca, este turismo ganhou novos ares. Se os americanos não podiam se divertir em seu país natal, investiram em estrutura para fazer isso em Cuba. Grandes redes hoteleiras expandiram suas atividades na região, empresas aéreas aumentaram seus voos rumo à ilha, destilarias e cervejarias decidiram se instalar no país e, claro, novos bares também.

Afinal, a oportunidade era irresistível: o turismo americano em Cuba mais do que dobrou entre os anos de 1916 e 1926. No pico do turismo em Cuba, mais de 90 mil turistas desembarcavam na ilha anualmente. Imagine só: mais de 180 mil drinks eram preparados nos bares do país todos os anos.

O ofício de bartender nunca foi tão requisitado: entre americanos, cubanos e até mesmo estrangeiros, tentavam conquistar os turistas pelo paladar, criando uma mistura de culturas etílicas. Bares lotados e copos sendo esvaziados eram cenas bastante comuns.

brochura turística de cuba
Este folheto de 1927 mostra que Cuba atraía turistas americanos como um país de festa, praias e diversão.

BARES QUE MARCARAM ÉPOCA

Não podemos reduzir Cuba somente a bares como o El Floridita e o La Bodeguita del Médio. O primeiro, por exemplo, foi inaugurado quase cem anos antes da Lei Seca e, certamente, já tinha sua popularidade consolidada, o que fez com que caíssem nas graças dos turistas americanos – entre eles o icônico escritor Ernest Hemingway, que marca presença em seu balcão até hoje com uma escultura em tamanho real. Porém, quando chegavam em solo cubano, muitos americanos tomavam seus primeiros drinks com rum ao sair do avião – graças a parcerias com empresas nacionais.

lIlustraçao Bar Sloppy Joes
Imagina você e dois bartenders atendendo dezenas de clientes ávidos por um cocktail? Esses eram os anos dourados de Cuba

Quem chegava pelo oceano, por outro lado, fazia uma visita ao Sloppy Joe’s, que era tão próximo quanto possível do porto. Mas não parava por aí. Além das casas tipicamente cubanas, bares com influência americana também pipocavam pelas ruas da cidade, como: New Orleans Cafe, Cafe Suzerac, Gold Dollar, Rialto Cafe, entre outros. A influência cubana nos cocktails, clima e sabores foi tão absorvida que, anos mais tarde, após o fim da Prohibition, podia ser sentida na coquetelaria Tiki e os sabores de New Orleans.

Chamada por muitos de ‘Paris do Caribe’, estimativas históricas apontam que Cuba tinha cerca de sete mil bares na década de 20.

Conheça a história e as receitas do El Floridita nesta matéria:

El Floridita: o santuário do Daiquiri em Cuba

IMPULSO DA PROFISSIONALIZAÇÃO

Após a promulgação do Voldstead Act, que instaurou a Lei Seca nos Estados Unidos, os bartenders americanos precisaram tomar uma decisão: trocar de profissão, exercê-la na ilegalidade ou pegar um avião. Muitos escolheram a última opção. Graças à inauguração de novos bares, restaurantes e resorts na ilha com dinheiro americano, eles não tiverem dificuldade em encontrar um novo balcão para chamar de seu.

Porém, não demorou para que os cantineros sentissem o baque. Eles precisavam agir rápido para provar o seu valor e o seu conhecimento sobre a coquetelaria cubana, melhorando o serviço e criando sua própria identidade. Alguns grandes nomes, como Constantino Ribalaigua, do La Floridita, por exemplo, chamavam atenção dos turistas, mas era preciso trazer cada vez mais cantineros para os holofotes.

Para serem considerados cantineros, os bartenders precisavam saber mais de 200 receitas – entre nacionais e internacionais

O caminho escolhido por eles foi a profissionalização. A Associação de Cantineros de Cuba decidiu, na época, que todos os bartenders cubanos deveriam saber falar inglês, preparar e servir cocktails. Eles se organizaram em níveis de aprendizes, bartenders e cantineros – este último, considerado o mais alto na hierarquia, determinava que eles soubessem decorassem a receita e preparação de 200 drinks e participassem de competições nacionais para provar suas habilidades. Surgiam assim os primeiros campeonatos de coquetelaria do país.

Eles reconquistavam, aos poucos, seu espaço nos principais bares da ilha. Porém, mesmo após o fim da Prohibition, muitos barmen estrangeiros continuavam na ilha. Os cantineros, no entanto, conseguiram mudar o jogo: sua associação ganhou status de entidade de classe na década de 30. O governo determinou, então, que só os bartenders capacitados e registrados na associação poderiam trabalhar nos bares cubanos.

ESTE TURISMO AINDA EXISTE?

É sabido que as relações entre Cuba e Estados Unidos se deterioraram rapidamente nas últimas décadas, principalmente após a Revolução Cubana (1959), que resultou na estatização das empresas e serviços, e no embargo comercial. Por este motivo, os norte-americanos ficaram proibidos de visitar a ilha por décadas. Isso mudou na virada do século e, ainda hoje, é possível visitar Cuba, conhecer suas praias, cultura, gastronomia e arte.

É certo que Cuba já não respira o mesmo ar cosmopolita e turístico, tendo em vista as constantes mudanças nas condições políticas e econômicas a que a ilha enfrentou nas últimas décadas. Bares como o La Floridita e o La Bodeguita del Medio continuam abertos e preparando cocktails à todo vapor para os visitantes, porém, é preciso destacar que a coquetelaria tomou outros rumos.

Cocktails tradicionais e tipicamente cubanos, como a Canchanchara, por exemplo, podem ser encontrados em bares locais e, drinks internacionais, diretamente nos balcões dos bares de hotel da capital.

A Lei Seca dos Estados Unidos trouxe milhares de turistas anualmente para a ilha, muito popular por seus drinks à base de rum. Conheça os segredos da produção e do sucesso do destilado:

Os segredos e o sucesso da produção de rum em Cuba

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