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Dick Bradsell, criador de Clássicos e tendências  (*1959 †2016)

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Foto Dick Bradsell

⍟ O mundo da coquetelaria despediu-se de
um de seus grandes ícones em 27 de fevereiro:
Richard “Dick” Arthur Bradsell.

 

Quando a criação de coquetéis verdadeiramente tornou-se uma arte, este inglês nascido na pequena Bishop’s Stortford se sobressaiu pelo pioneirismo, desenvolvendo técnicas de produção e combinações de sabores que invariavelmente aproximaram suas receitas da perfeição.

Duas delas, sem dúvidas, atingiram este patamar: o Bramble (gin, suco de limão, xarope de açúcar, crème de mûre e gelo picado) e o Espresso Martini (café espresso frio, xarope de açúcar, double vodka, licor de café e gelo). Outras, como o The Russian Spring Punch (vodka, licor de cassis, licor e raspas de framboesa, suco de limões frescos, xarope de açúcar, champagne e gelo) figuram entre os chamados clássicos.

“Viver da coquetelaria se tornou um estilo. Mas não há estilo sem conteúdo”, costumava dizer, evidenciando, ao mesmo tempo, sua aversão aos holofotes e a obsessão pelo conhecimento.

Bradsell assimilou os primeiros segredos da coquetelaria pouco antes dos 18 anos, quando se tornou uma espécie de ‘faz tudo’ no In & Out, clube londrino dirigido por um tio. Não se tratava exatamente de uma opção, mas de necessidade: ele havia acabado de sair da casa dos pais, cansado de ser repreendido por conta das festas que organizava aproveitando a ausência deles.

Mesmo assim, tomou gosto pelo trabalho. E logo tratou de aceitar a vaga de garçom que lhe ofereceram no movimentado Zanzibar, sendo promovido a barman tão logo que seu talento foi descoberto. Na época os hábitos dos ingleses não iam muito além da cerveja e do gin tônica, mas seus drinks rapidamente caíram no gosto dos clientes.

Então veio a chance de cruzar o Pacífico para se tornar chefe de bar no Club 1997, em Hong Kong. Eram meados dos anos 1980 e ele partiu, sem titubear. O local costumava ferver quando a Marinha americana atracava pelas imediações e sua fama repentina conferiu a Bradsell prestígio internacional.

Quando retornou, estava pronto para se tornar um dos grandes artífices da reativação da coquetelaria britânica. E assim o fez, à frente de alguns dos principais bares da região do Soho, como Fred’s, The Player, Colony Room, Atlantic e Pink Chihuahua.

“Nossos patrões e clientes não nos elogiam tanto quanto poderiam, então voltar para casa com um prêmio pode ser realmente inspirador”.

DO GLAMOUR À SABOTAGEM

Além do sucesso imediato, Bradsell também colecionou ótimas histórias em cada um desses endereços. No Fred’s, por exemplo, tornou-se célebre a origem do Espresso Martini. A bebida teria sido “encomendada” a ele por uma top model americana, então com sérias dificuldades para demonstrar bom-humor em ensaios fotográficos matinais. Há quem garanta que a cliente atendia pelo nome de Naomi Campbell.

Já os seis meses em que esteve no Atlantic Bar and Grill foram tão marcantes que lhe renderam a posteridade: diante do impasse para escolher o novo nome do bar da casa, ele sugeriu aos donos o próprio apelido. Deu certo. E assim surgiu o Dick’s.

Pintor nas horas vagas e sempre bem relacionado, cultivava também o hábito de receber no balcão amigos ilustres, tais como o filósofo Francis Bacon e o artista plástico Lucian Freud. Servi-los, no entanto, nem sempre era tarefa das mais fáceis, especialmente na época do Colony Room.

Incomodado com o tempo gasto no preparo dos coquetéis, um dos sócios daquele bar costumava sabotá-lo, sorrateiramente sumindo com seu equipamento. “A solução era esperar um colega ou discretamente usar os dedos para misturar os ingredientes”, revelou, bem-humorado, em uma de suas últimas entrevistas.

VERSÁTIL E CONVICTO

Enquanto muitos de seus colegas de profissão deixavam a indústria de bebidas para buscar empregos “convencionais”, ele tratou de diversificar sua atuação. Virou consultor, juiz de competições entre mixologistas, articulista e até apresentador de TV – em um programa de TV próprio no Channel 4, o Dick’s Bar, que contou com dez episódios de cinco minutos.

Adepto ferrenho da dupla coagem, sucos de frutas frescas, copos resfriados e amplos estoques de gelo, viu suas práticas se tornaram tendências não só no Reino Unido, mas também nos países de origem das centenas de profissionais que treinou, como a Austrália. “A perfeição na coquetelaria não é uma coisa que simplesmente acontece. É preciso fazer o esforço”, alertava em suas palestras.

Logo após o anúncio de sua morte, Mike Sweetman, vice-presidente da Associação de Bartenders do Reino Unido, reiterou em nota oficial o imenso apreço do setor ao seu legado: “nos deixa hoje uma verdadeira lenda do mundo da mixologia”.

Sua única filha, Bea Bradsell autorizou recentemente uma campanha em prol da associação The Benevolent – a qual o pai auxiliava-, que busca parceiros para prestar atendimento a profissionais e ex-profissionais da indústria de bebidas inglesa que hoje vivem em situação de risco social. Acesse: justgiving.com/dickbradsell.

“O segredo de preparar um drink que resistiu ao tempo é confiar na receita original”.

Dick Bradsell

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