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Bartenders, diversão, confusão e tiros no Velho Oeste: o nascente e o poente dos saloons

História
brigas nos saloons americanos

⍟ Cenário obrigatório nos filmes de faroeste, os saloons eram lugares de entretenimento que faziam parte de uma grande estratégia de vendas. Conheça a história que envolve a abundância de bebida, os almoços grátis, duelos e a batalha travada contra os grupos de temperança e o governo.

A existência dos saloons está ligada ao início do conceito moderno de bar. A princípio, as bebidas alcoólicas eram produzidas e comercializadas em barris ou garrafas para consumo doméstico. Com o passar do tempo, os produtores perceberam como era interessante fazer a venda porcionada destes produtos e surgiu a necessidade de adaptação dos pontos de venda para que isso acontecesse.

Aqui entra a figura do barman. Empenhado na preparação das diversas bebidas alcoólicas, utilizando receitas passadas de geração em geração ou mesmo comercializadas em manuais, esse profissional tinha o know how das misturas. A ênfase da produção, no entanto, era a melhoria da potabilidade e o incremento de vendas. Ou seja, o grande parâmetro de “qualidade” naquela época era o quanto o cliente era capaz de consumir.

Acostumado a produzir longe dos olhares dos clientes, assim que surgiu a venda porcionada, o misturador de bebidas ou mixologista viu-se obrigado a reinventar sua profissão, trazendo parte do processo de produção, mais especificamente sua finalização, para diante do balcão onde as vendas eram consolidadas. O lugar onde antes era realizada a transação de entrega e pagamento de garrafas e barris se tornava aos poucos um chamariz para o consumo. O barman tornou-se um artista, capaz de chamar a atenção do público com movimentos, elegância e simpatia.

GENTE SORRIDENTE E DE BEM COM A VIDA. Atrás dos balcões dos saloons apareceram os primeiros barmen. Saloon em Central City, em 1870. (Foto: Denver Public Library)

Em 1822, surgiu nos Estados Unidos o primeiro saloon de que se tem registro: o Brown’s Hole, no Wyoming, que atendia principalmente caçadores comerciantes de peles de animais. Embora pouca coisa se saiba sobre a operação deste bar, outros um pouco mais recentes sobreviveram à Lei Seca e ainda operam, nos dando alguns vestígios sobre como eram e funcionavam estes estabelecimentos, como é o caso do Miner’s and Stockmen’s Steakhouse and Spirits, inaugurado em 1862, também no Wyoming. Embora o Brown’s Hole e outros mais antigos já fossem saloons de fato, o termo só começou a ser utilizado com frequência na década de 1840.

A prática destes pontos de dose se tornaram generalizadas e, a partir de 1880, indústrias de bebidas começaram a abrir saloons próprios para a comercialização de seus produtos. É certo que as bebidas, inclusive a cerveja, eram vendidas em temperatura ambiente, já que o gelo não era popular e as geladeiras ainda estavam sendo inventadas.

MÚSICA AO VIVO. Oscar e Mattie Babel, casal de músicos de saloon que iniciam carreira na década de 1880 e alternavam apresentações em saloons e festivais de igrejas no Texas. Embora tenham ficado conhecidos como músicos cowboys, eles nunca os foram de fato: criaram os personagens para  uma melhor identificação com o público. (Texas State Historical Association)

ENTRETENIMENTO

Além do showman atrás do balcão, outros atrativos também começaram a ser inseridos no cotidiano dos saloons, como música ao vivo, dança, jogos de azar e outras coisas menos nobres como bordéis e espaços de consumo de ópio. Ora, aumentar o tempo de permanência no estabelecimento era sinônimo de aumento de consumo e de lucro.

BAR

Dentro do contexto do saloon teriam aparecido as primeiras bars, que consistiam em barras de madeira ou metal dispostas diante do balcão para que os clientes pudessem apoiar um dos pés, de modo que, de tempos em tempos, alternassem a distribuição do peso do corpo e pudessem ficar por mais tempo diante do balcão.

Além disso, alegava-se que a barra mantinha a parte da frente do balcão menos suja, já que este local era utilizado com alguma frequência para que os clientes raspassem suas botas e os mascadores de fumo cuspissem. Afim de evitar que o cuspe fosse pisoteado, além da barra, frequentemente eram colocadas abaixo dela algumas cuspideiras de metal, para que o escarro escuro não manchasse o assoalho. Foi desta barra que surgiu o nome bar. Uma das maiores fornecedoras deste equipamento na década de 1890 foi a Brunswick-Balke-Collender Co.

CUSPIDA NO CHÃO E MARRA. Vista interior do Toll Gate Saloon, Black Hawk, Colorado, em 1897:  a barra, o piso de madeira com manchas de tabaco mascado, o barman, clientes distintos e uma cuspideira de latão no chão (Foto: Wikimedia commons)

NÃO EXISTE ALMOÇO GRÁTIS

Uma das grandes técnicas para aumentar a permanência de clientes nos saloons foi a oferta de refeições sem custo. Essa era uma grande aposta, já que, ao passo em que uma cerveja custava por volta de 15 centavos, uma refeição valia cerca de um dólar, em 1875. Desta prática surgiu o adágio “Não existe almoço grátis”. A refeição, além de repor a energia do cliente que talvez já estivesse quase parando de beber, também aumentava a sede, já que frequentemente tinha mais sal que o necessário.

O FIM DA BOCA LIVRE. O almoço grátis foi proibido por lei em em Ohio em 1909, em 1912 em Los Angeles, em 1917 em Chicago e, em 1918 em San Francisco. As leis restringiam o serviço grátis a apenas alguns poucos petiscos. (Free lunch, de Charles Dana Gibson. Wikimedia communs)

Desta tática, conforme as leis nos estados americanos iam restringindo as refeições completas de forma gratuita, sugiram variantes mais simples, como a oferta de petiscos sem custo para o consumo. Afinal, agora você sabe o motivo de alguns bares até hoje servirem amendoim torrado e salgado gratuitamente. O sal estimula as papilas gustativas aumentando a sede, o que provavelmente aumenta o consumo de bebidas. A ideia era que esse aumento compensasse o gasto do estabelecimento com a refeição, o que normalmente acontecia.

AS PORTAS DE SALOON

Embora os filmes de Velho Oeste representem os saloons sempre com suas portas icônicas, nem todos eles eram dispunham deste equipamento, embora haja registro de lugares que o utilizavam. Dotada de sistema que permitia abertura nas duas direções, a porta facilitava o trânsito dos clientes, ajudava a diminuir a quantidade de poeira que entrava no bar sem prejudicar a ventilação, permitia que os beberrões tivessem uma relativa privacidade – de modo particular evitavam os olhares das damas passantes – e enxergassem aqueles que estavam para entrar no local, o que podia ser útil para que corressem ou sacassem suas pistolas, como imaginam aqueles que gostam de cenas de pancadaria e tiroteio. Contudo, há saloons realmente antigos ainda em funcionamento que podem decepcionar alguns visitantes. Portas convencionais, fechadas ou abertas, são mais frequentes. As famosas portas são raras, ao menos nestes remanescentes.

SOBREVIVENTE. Aberto desde a década de 1860, o The Buckhorn fica na região montanhosa na cidade mineira de Pinos Altos, no estado do Novo México. Embora a fachada seja decadente – e não tenha a famigerada ‘porta de saloon‘ – por dentro o estabelecimento tem música ao vivo e boa comida em um ambiente surpreendentemente elegante

APARÊNCIA

PALÁCIOS E BARRACOS. Dos mais chiques até os mais modestos, os saloons recebiam públicos de todos os tipos. John Hoffman and Co. saloon and grocery, San Antonio, Texas, 1898.

Além das portas, os filmes de bang bang gravaram em nosso imaginário a estética dos saloons. Contudo, elas variavam bastante a depender do lugar, do poder aquisitivo dos clientes e do tipo de público que costumava receber. Os estabelecimentos eram feitos desde restos de barcos mal empilhados e barracos de madeira quase despencando a construções mais arrumadas de madeira ou alvenaria. Com o passar do tempo, muitos hotéis começaram a abrir seus próprios saloons para atender os hóspedes e, em pouco tempo, alguns deles ganharam ares de requinte e eram adornados com obras de arte. Estes saloons mais bem arrumados e frequentados também faziam um maior investimento no preparo de suas bebidas e contratação de profissionais mais capacitados e criativos.

BEBIDA, BRIGA, GRITARIA E CONFUSÃO

Também o extrato social que frequentava um saloon dizia respeito à sua aparência. Um grande acervo a partir da popularização da fotografia em meados do século XIX nos dá uma noção mais precisa de como se pareciam estes lugares. Também os remanescentes daquela época são provas históricas de sua decoração. E, embora no imaginário popular os saloons sejam frequentados por cowboys, os mais diversos tipos de público marcavam presença esses locais, exceto mulheres.

homens em saloon americano
NADA COMO TOMAR UMA AO LADO DE GENTE SIMPÁTICA. O interior do Table Bluff Hotel and Saloon em Table Bluff, norte da Califórnia, 1889. Caçadores de peles e homens das montanhas foram fundamentais para ajudar a explorar e organizar trilhas de carroças, o que permitiu que as pessoas viajassem para Oeste. No século 19, muitos também foram atraídos pelo crescente comércio de peles americano

Havia aqueles voltados para caçadores, cowboys, trabalhadores braçais de todos os tipos, cavalheiros que trabalhavam em escritórios. Alguns deles até mesmo acolhiam públicos diametralmente opostos, do tipo bandidos e xerifes, mineradores concorrentes em busca de ouro e jogadores sem nada a perder.

pintura retratando brigas nos saloons americanos
GRITARIA E CONFUSÃO. Às vezes o barman precisava se esconder trás do balcão para se livrar de cadeiradas, garrafadas e tiros (A Barroom Brawl, Anton Otto Fischer, 1924)

A presença de públicos antagônicos com uma natural animosidade entre si, aliada ao alto consumo de bebidas mascarado por petiscos, não raro fazia com que a bebedeira terminasse em brigas homéricas, tão bem retratadas em pinturas, desenhos e filmes.

DO SALOON PARA O DUELO

Era relativamente comum que o desentendimento terminasse em pancadaria generalizada ou até mesmo em duelos. Falando neles, um dos casos mais conhecidos foi o de John Bull e Langford Peel. Depois de uma discussão em que Peel esbofeteou Bull, o ofendido propôs ir buscar sua arma em casa para um duelo. Depois de esperar por uma hora em um saloon sem qualquer vestígio do oponente que se atrasara, Peel foi embora. Em uma ocasião inesperada dentro de outro saloon, em 22 de julho de 1867, ambos se reencontraram, sacaram suas armas dentro do bar e Bull foi mais rápido, atirando em Peel.

Já em 9 de março de 1877, no meio de uma jogatina, Charlie Harrison e Jim Levy se desentenderam em um saloon de Cheyenne, no Wyoming. Levy chamou Harrison para resolver o imbróglio na base do tiro e foram os dois para a rua. Este é tido como um dos duelos mais hollywoodianos da história. Durante a disputa, Harrison atirou contra Levy de forma selvagem descarregando sua arma. Levy, que já tinha duelado contra o atirador Michael Casey em Pioche, Nevada, usou a experiência a seu favor: mirando com cuidado, acertou Harrison com apenas um tiro.

A agilidade dos atiradores e a estética do Velho Oeste é bem ilustrada no filme musical A Balada de Buster Scruggs, dirigido por Joel e Ethan Cohen, com uma excelente fotografia e sem nenhuma sutileza de movimentos:

O MOVIMENTO ANTI-SALOON

Os saloons, na prática, eram uma reunião de fatores considerados por puritanos e progressistas como o suprassumo da imoralidade. Por essa e por outras, tornou-se alvo de iniciativas que visavam sua erradicação. Desde 1826, formavam-se em vários estados dos EUA os chamados Grupos de Temperança, associações que pregavam a moderação no consumo de álcool, geralmente ligadas a denominações religiosas radicais.

FECHEM OS SALOONS – Se você acredita que a comercialização de álcool causa mais males do que bem, ajude a parar isto. (Propaganda Anti-saloon)

Estes grupos, liderados por pessoas influentes, cada vez mais apertava o cerco a respeito da comercialização de álcool, exercendo pressão sobre os legisladores.

O movimento deu origem a iniciativas proibicionistas cada vez mais rígidas que se espalharam por vários países, como a Woman’s Christian Temperance Union, em 1873, a Anti-Saloon League, que teve início em Ohio, em 1893, e a Pioneer Total Abstinence Association, em 1898.

A diferença entre a Liga Anti-Saloon e outros movimentos, é que esta, ao invés de fazer um apelo às massas, organizou-se de forma sistemática, utilizando o conhecimento de métodos burocráticos para criar uma iniciativa robusta e politicamente influente. Seu fundador e grande divulgador foi o advogado e pastor congregacional Howard Hyde Russell. A Liga Anti-Saloon foi uma organização tão bem estruturada que subsiste até os dias de hoje, com outro nome, porém: American Council on Addiction and Alcohol Problems.

CERVEJA É INTOXICAÇÃO – Um quiosque da Anti Saloon League divulgava a iniciativa e recolhia assinaturas para a causa da proibição.

Wayne Wheeler, Ernest Cherrington e William E. Johnson foram suas lideranças mais expressivas e responsáveis pelo estabelecimento de um lobby político poderoso, capaz de influenciar e pressionar legisladores em todos os níveis de governo para criar leis a favor da causa proibicionista. Sua ação estava associada a outro grupo radical de cunho religioso e não menos influente: a Ku Klux Klan. Ao lado dos demais movimentos, a Liga Anti-Saloon e a Klan foram responsáveis pela derrocada dos saloons no território norte-americano e a promulgação de leis severas para punir aqueles que comercializavam bebidas alcoólicas.

A PROIBIÇÃO

Pouco a pouco, os estados americanos começaram a colocar em prática suas leis de proibição. O ápice do movimento foi alcançado quando, finalmente, em janeiro de 1919, foi promulgada a 18º emenda Constitucional, conhecida como Lei Seca. A partir de então, os saloons, assim como outros bares e estabelecimentos de vendas de bebida fecharam ou passaram a funcionar na ilegalidade. Alguns poucos saloons sobreviventes daquela época são testemunhas de que o Velho Oeste, sua gente e seus bares não são apenas invenção dos filmes.

Sobre o que aconteceu após o início da Prohibition, temos uma matéria especial bastante completa aqui em nosso site. Não deixe de ler para saber como essa história termina:

A Lei Seca nos EUA: uma história passada a limpo

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