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Tiki reinventado

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⍟ Talvez não haja vertente da coquetelaria tão rica em detalhes como a Tiki. Ela já passou por diferentes fases desde que surgiu, nos anos 1930, mas nunca deixou de chamar a atenção, fosse pelo sabor, pelo visual ou pelos personagens que estão a sua volta.

história da coquetelaria Tiki é pitoresca desde seu DNA. Afinal, surgiu das mãos do norte-americano Ernest Beaumont Gantt (1907-1989), mais conhecido como Don The Beachcomber, figura quase lendária da época.

Ex-guardador de carros, ‘facilitador’ do comércio de bebidas durante a Lei Seca norte-americana e, dizem, amigo próximo da atriz Marlene Dietrich, Beachcomber era um homem de muitas conexões. Mas só conseguiu prosperar mesmo como comerciante quando resolveu abrir seu próprio bar, em 1934, na emergente Los Angeles.

Fascinado pelo clima do Caribe e da Polinésia, rotas habituais de suas andanças pelo mundo, ele decidiu experimentar receitas que de alguma forma remetessem àquela atmosfera tropical. Um conceito que se tornou ainda mais original quando decidiu servi-las em canecas típicas da cultura tiki, que reproduziam as máscaras dos deuses locais, trazidas por soldados norte-americanos em missões nas ilhas do Pacífico.
A julgar pela quantidade de drinks que criou – 84 no total, incluindo o Mai Tai, considerado o mais emblemático do gênero – já dá para se medir o quanto foi bem-sucedido.

Para Alex Mesquita, do Paris Bar, um dos mais concorridos endereços da coquetelaria carioca na atualidade, mesmo com tantas características peculiares, foi essencialmente o sabor que garantiu às criações de Beachcomber tamanha longevidade:

“Em sua maioria, os Tiki drinks são à base de rum e quase todos contém suco de frutas cítricas frescas e xaropes artesanais como amêndoas, maracujá, baunilha, canela e pimenta da Jamaica. Quando bem equilibrado manipula doce e azedo, frutado e seco, força e leveza, proporcionando uma experiência incrível de novas camadas de sabores, do início ao fim”, comenta.

Mas havia, de fato, outros fatores. Como o rum não era um dos destilados mais caros do mercado, os preços dos drinks pareciam bem razoáveis ao bolso dos clientes de Beachcomber, que a esta altura já se via diante de um incômodo concorrente: Victor Bergeron, o Trader Vic, que abriu as portas de seu bar em San Francisco com a mesma proposta. Não por acaso eles se tornariam os donos das duas grandes redes de bares tiki instaladas em solo americano.

A doçura e refrescância das bebidas traziam associação imediata às ensolaradas paisagens e eram uma espécie de alento em tempos de pós-guerra e da anexação do território do Havaí ao país. Assim, é inegável que os canudos coloridos, as flores, guarda-chuvas e demais apetrechos exóticos tiveram seu valor ao popularizar essa vertente da coquetelaria. Além, é claro, das referências que por muito tempo habitaram filmes de Elvis Presley e canções dos Beach Boys.

jeff-berry_2Mesmo notando que todos bebiam cerveja, chamei a garçonete e perguntei se ela sabia como preparar um Mai Tai”.

Jeff Beachbum Berry

“As receitas eram todas autorais e preparadas nos fundos do bar, para que os garçons não descobrissem os segredos dos coquetéis. Era quase um ritual, que acabou originando um estilo único e essencialmente artesanal, diante dos escassos recursos na época. É fascinante como os pioneiros do tiki conseguiam explorar o rum em suas diferentes características, o sabor das frutas e até mesmo o gelo, em frapês”, elogia Mesquita.

ANOS SOMBRIOS

A até então improvável decadência dos coquetéis tiki não se deu por um simples modismo, mas devido a uma real mudança de humor na América nos anos 1970. Os anos sombrios da Guerra do Vietnã, o crescimento de produtos industrializados no mercado e a vida cada vez mais corrida nas grandes metrópoles mudou os costumes, inclusive no consumo de bebidas.

Naquele novo contexto, mais sóbrio e imediatista, parecia um disparate pensar em alguém com tempo para relaxar saboreando drinks exóticos e de elaboração tão artesanal, com ingredientes que já rareavam nas prateleiras. Tampouco frequentar bares decorados por famosos diretores de arte de Hollywood com motivos tropicais, marca dos tempos de apogeu.

livro_2Autor do livro Potions of the Caribbean e um dos principais especialistas do tema na atualidade, o norte-americano Jeff “Beachbum” Berry costuma citar em suas entrevistas um episódio que retrata com perfeição este momento de transição:

“Como uma criança que costumava frequentar restaurantes tipicamente polinésios, eu ficava encantado com aqueles drinks servidos em copos altos, espalhafatosamente decorados. Mas quando passei a ter idade suficiente para pedi-los, não existiam mais lugares como aqueles.

Até que no fim dos anos 1980 indicaram-me um bar em Van Nuys, na Califórnia, que supostamente preservava a tradição. Mesmo notando que todos bebiam cerveja, chamei a garçonete e perguntei se ela sabia como preparar um Mai Tai. E ela respondeu: – Claro! O que leva nele? (…) Foi quando decidi escrever meu primeiro livro sobre coquetéis tropicais, The Grog Log”.

A REINVENÇÃO

Como se vê, não foi por acaso que a coquetelaria tiki flertou por algumas décadas com o ostracismo. Até que a evolução da mixologia, especialmente a partir da virada do século, permitiu um providencial revival. Afinal, por suas características, o tiki desafia como poucos o talento dos bartenders e valoriza a busca por ingredientes cuidadosamente escolhidos.

puma_2Para Puma Ricardo Fuenzalida, chileno radicado no Brasil e diretor da Cocktail Channel, a volta dos coloridos drinks é motivo de comemoração. “O rum é meu destilado preferido e desde que conheci as histórias da cultura tiki, o processo de elaboração e a variedade de coquetéis, como o Royal Bermuda Yatch Club e o Zombie, me encantei. Da mesma forma, pela composição de alguns xaropes e bitters que considero a alma do tiki style, como Falernum, Orgeat, Pimento Dram, entre outros”, diz.

Pela diversidade que envolve o tema, a implantação de um bar Tiki no Brasil – nos moldes dos que existem hoje nos Estados Unidos, Itália e Argentina, por exemplo – ainda lhe parece algo distante. Mas ele vê potencial de mercado nas chamadas Tiki Nights, que podem fomentar um investimento maior, especialmente em médio prazo:

“Destinar um dia da semana para um evento temático, servir esses coquetéis num ambiente mais festivo, acompanhados de música e gastronomia típicas, pode ser uma boa alternativa. Para evoluir, precisamos primeiro realizar um bom trabalho e incorporar os tiki drinks às cartas dos bares, pois eles têm grande potencial para se destacar”, afirma.

Em sua maioria, os Tiki drinks são à base de rum e quase todos contém suco de frutas cítricas frescas e xaropes artesanais como amêndoas, maracujá, baunilha, canela e pimenta da Jamaica”.

Alex Mesquita, do Paris Bar

drink-e-garrafa_2INGREDIENTES

60ml de Havana 7 Años
20ml de Havana 3 años
30ml de Pimento Dram
10ml de suco de laranja
15 ml de Licor Flor de Sabugueiro
15ml de Rum OverProof
15ml de Vermouth Rosso
Lances de Zulu Aromatic Bitter

DECORAÇÃO

Folhas de hortelã
Limão desidratado
Laranja Bahia desidratada

É o que tem feito Alex Mesquita no Paris Bar. Desde 2012 ele serve originais e variações de coquetéis tiki, além de adaptações de outros drinks inspiradas por esta roupagem, do Daiquiri à caipirinha. Frutas desidratadas e farelos foram incorporados às receitas para dar um toque contemporâneo e realçar a harmonia nos sabores, enquanto canecas especialmente garimpadas no exterior ajudam a preservar a tradição.

“Com suas particularidades, a coquetelaria tiki está ajudando muitos bartenders a acertarem a mão e aprimorarem o feeling”, conclui.

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