Colher de cabo longo usada para medir, pegar e misturar ingredientes. Pode ter uma das pontas com muddler ou garfo.
A COLHER DE BAR
Embora pareça um dos mais simples utensílios do bar, se nos atentarmos à sua história, veremos séculos e mais séculos de evolução até chegarmos à colher de bar como a conhecemos hoje.

COLHERES ARQUEOLÓGICAS
A colher é um utensílio que remonta ao período paleolítico, quando nossos ancestrais começaram a utilizar conchas e pedaços de madeira para carregar pequenas quantidades de alimento ou bebida à boca. Isto foi, sem dúvida, um grande marco evolutivo, pois o homem começou a sentir necessidade de se alimentar sem precisar sujar as mãos.
As colheres mais antigas já encontradas remontam aos tempos dos faraós e mais além. Diversos materiais foram utilizados para o artefato. Como dito acima, conchas e pedaços de madeira foram os primeiros, seguidos de chifres e pedras e, apenas bastante tardiamente, o metal. É interessante notar que diferentes versões do utensílio foram produzidos na mesma época em locais e culturas bastante diversos. Assim, enquanto os egípcios criavam suas colheres, os chineses, turcos e indígenas de todas as partes do mundo também criavam as suas.
IDADE MÉDIA E A SUCKET SPOON
O primeiro documento citando a colher remonta ao século XIII. Já nesta época, a colher havia evoluído bastante e o material ordinário para sua confecção era o metal. Foi nessa época que surgiu entre os germânicos aquilo que podemos considerar a tataravó da bailarina, a chamada “sucket spoon”. Uma haste dotada de um garfo de, geralmente, dois dentes em uma das extremidades e uma pequena concha na outra, a ‘sucket spoon’ era utilizada como um versátil talher para refeições em geral. Muitas delas já tinham aquela torção na haste que vemos hoje tão frequentemente nas bailarinas.

Naquela época não era nem um pouco comum a utilização de um jogo completo de talheres de diferentes formas e tamanhos para a alimentação. Assim, a tal colher-garfo era muito conveniente. Diga-se de passagem, é bastante conveniente até os dias de hoje, em situações em que não se possa carregar aquele faqueiro lindo que você herdou da sua avó. Acampamentos, exílios, guerras e coquetelaria são exemplos disso.
Tendo chegado à Inglaterra por meio dos normandos, a ‘spoon’ ganhou o ‘sucket’, que era o nome dado a frutas em conserva servidas com a calda ou sem ela. Aí ela encontrou seu uso ideal: se você fosse comer a cereja com a calda, usava o lado da colher. Se fosse comer ela sem a calda, bastava espetá-la. O cabo provavelmente se alongou um pouco para que se pudesse colocar a colher dentro do pote e a fruta fosse capturada sem que os dedos mergulhassem junto.

A COLHER NO BAR
No final do século XIX, quando a coquetelaria dava seus primeiros passos, a versátil ‘sucket spoon’ passou a ser utilizada também no bar, quando os clientes a utilizavam para mexer seus drinks e espetar os garnishes para abocanhá-los. Os barmen a utilizavam igualmente para a montagem dos mesmos. Sua forma mais parecida com a atual seria adotada muito pouco depois, como vemos a seguir.
A COLHER DA FARMÁCIA ENTRA NO BAR
Um tipo de colher utilizada largamente por farmacêuticos da época, dotada de uma espécie de muddler em uma das extremidades, também foi incorporada ao repertório de utensílios de bar. De origem francesa, a chamada “Cuillère à medicament” se popularizou em meados do século XIX como instrumento de produção de medicamentos e tinha o muddler na extremidade para que o farmacêutico pudesse quebrar pequenos cristais formados em componentes em pó, para que melhor se dissolvessem nos líquidos.

A concha da colher também tinha uma medida bastante precisa e as bordas bem retas, para que se pudesse medir as quantidades exatas de cada componente e o farmacêutico pudesse passar uma faca na sobra para fora da colher, eliminando o excesso. Essa é praticamente a bailarina que conhecemos, à diferença que o cabo aumentou um pouco mais (embora hoje esteja na moda o uso de cabos quilométricos). A sucket spoon rapidamente foi substituída pela cuillère, que recebeu o nome óbvio de ‘bar spoon’.


FARMACÊUTICO COM ESTOQUE LIMITADO
Na época em que a coquetelaria ganhou suas primeiras formas, o consumo de bebidas alcoólicas destiladas era tido por muitos como algo ‘medicinal’. Muitos bartenders e licoristas costumavam usar aventais e jalecos brancos e se valiam de recipientes usados em laboratórios, como garrafas, beckers, pipetas para armazenar aquilo que consideravam elixires.
As medidas usadas nos drinks também eram precisas como as dos medicamentos. Não é sem justificativa de origem que, até hoje, vemos ora um licor de cacau sendo vendido como combatente de intrusos da flora intestinal, outra ‘biotônicos’ para abrir o apetite.
Mesmo o Gin Tônica, o refrigerante de cola e outras coisas que hoje são considerados apenas apetitosos ao paladar, foram criados com finalidade medicinal, mas isto é assunto para outra matéria.
A ‘PRIMEIRA’ COLHER DE BAR

O catálogo da Farrow & Jackson de 1898 tinha um produto ‘inovador’ à venda, criado com base na colher de farmácia: uma colher com o cabo comprido terminado por um pequeno muddler e, na descrição, “Bar Spoon”. Boutiques francesas também anunciavam um modelo de colher semelhante com o nome “Mazagran”, em homenagem à vitória militar francesa de 1840, próximo à cidade algeriana homônima.
Assim, a colher da farmácia ganhava os cafés e bares franceses. Como a França era o ‘centro do mundo’ naquela época e suas modas se espalhavam como fogo no mato seco, não demorou muito para que todos usassem o modelo ‘Mazagran’ em seus bares. O nome ‘Mazagran’ acabou caindo em desuso com o tempo e a maioria passou a chamá-la simplesmente de colher de bar. Este é o tipo de colher, sem dúvidas, mais utilizada até os dias de hoje, nos bares do mundo inteiro.
