Em que ano você nasceu?





Raízes da Cachaça – Parte 1 – paralelos entre a história do Brasil e da bebida

História

⍟Nessa série de reportagens, o Clube do Barman traça um paralelo entre o país e a bebida que mais o representa – desde a origem até seu sabor. A cachaça, cheia de brasilidade e o Brasil, cheio de cachaceiro – no bom sentido. Entender o significado por trás de um copo da “branquinha” pode fazer com que compreendamos muita coisa sobre nossa terra.

Tanto o país quanto a bebida possuem características tão parecidas que chega a ser fácil traçar paralelos. Pindorama, pinga, Ilha de Vera Cruz, aguardente, Brasil, cachaça. Diversos nomes, um mesmo significado: brasilidade. As origens? Confusas e nebulosas. Um misto de estórias, versões e lendas. Portugueses, índios, árabes, africanos, holandeses. Bebida miscigenada como o país. O país popular como a bebida. Brasil e Cachaça – uma biografia.

O PAÍS FORJADO NO ALAMBIQUE

Estudar a história do Brasil não é fácil. Não há prazer algum em descobrir que o país que você nasceu foi, em grande parte, construído por mãos escravizadas. Infelizmente, é um passado que não se pode apagar, mas apenas lamentar – e corrigir. Nada do que tínhamos aqui era 100% suficiente. Sempre nos olharam com arrogância e como se houvesse algo para corrigir. O pau-brasil era exportado, as especiarias do sertão eram exportadas, o açúcar era exportado, os indígenas eram descartados. Nada do que tínhamos aqui era suficiente e, quem nascera aqui, por consequência, não merecia o melhor que o país poderia oferecer. A história do Brasil é um conto de extremo potencial, mas de auge incompleto.

E com a cachaça não é diferente. Estudar sua origem não é fácil, pois não se sabe de onde ela, de fato, veio. Há quem diga que foi por acaso, há quem diga que é uma bebida muito mais antiga do que pensamos. Infelizmente, ainda não temos como saber. O que sabemos, com certeza, é: a Cachaça está entre nós. Se ela, com o gado consumindo e tendo reações curiosas ou nos alambiques portugueses ao redor do mundo…não importa. O que precisamos e queremos saber é como ela vai chegar a nossos copos!

Mas, para isso acontecer é necessário, em primeiro lugar, entender o contexto proporcionado para que a nossa tão querida “marvada” se proliferasse mundo afora.

A ESTRUTURA POR TRÁS DA GARRAFA

Novamente vamos recorrer, aqui, aos paralelos entre a história do Brasil e a história da cachaça. Vamos explicar o porquê: o Brasil começa a receber seus primeiros portugueses em 1498 – sim, antes de Cabral. Eram 2 degredados que haviam cometido crimes em Portugal e foram deixados no norte das terras então desconhecidas por uma frota de 8 navios comandados por Duarte Pacheco Pereira. Ao aportarem, dois marinheiros da esquadra gostaram do que viram e resolveram ficar por aqui também, sendo os quatro bem acolhidos pelos nativos. Apenas dois anos depois, em 1500, chega ao continente a esquadra de Cabral, para oficializar a posse das terras. Apesar disso, é apenas por volta de 1532 que a ocupação das terras pelos portugueses, de fato, inicia-se.

Durante esses pouco mais de 30 anos, Portugal considerou o uso de nossas terras apenas para fins extrativistas, e o carro chefe foi a famosa árvore Pau-Brasil – e o valor que a tinta extraída de seus troncos possuía na Europa. Há uma explicação simples para isso: não era necessário um complexo sistema social para que se extraísse a pigmentação dos troncos das árvores.

A relação entre Portugal e as terras que viriam a ser o Brasil durante o período Pré-Colonial era basicamente extrativista, e tinha como foco a exportação de madeiras nativas, especialmente o Pau-Brasil

Os portugueses faziam suas rotas de comércio e, de passagem pela costa das terras de além-mar, colocavam tudo nos navios e voltavam para a Europa. Essa era a realidade durante os primeiros anos da “Ilha de Vera Cruz”. Porém, na década de 30 do século XVI as coisas começam a mudar. Aqui termina o período conhecido como pré-colonial e tem início a colonização. Agora, a intenção era povoar e explorar as terras do outro lado do Atlântico – o Brasil. Era necessária toda uma organização em cadeia para que isso acontecesse, desde o âmbito econômico até o social. Assim, após a expedição de Martim Afonso de Souza, as linhas das Capitânias Hereditárias foram traçadas, os Governadores Gerais foram escolhidos…e o Açúcar fez com que tudo funcionasse por mais de 300 anos.

Mas como? Por quê? Quando? Onde? Calma! Vamos responder tudo tim-tim por tim-tim. Começaremos pelo porquê.

PORQUÊ?

Antes de chegar ao Brasil, Portugal já vinha de um passado colonizador de outras terras no Atlântico e em algumas regiões da África. Nessas ilhas, como a Madeira e Cabo Verde, já haviam obtido sucesso com a plantação da cana – muito por conta do clima e solo favoráveis.

A qualidade de nossas terras e águas estava presente no primeiro relato enviado ao Rei de Portugal por Pero Vaz de Caminha

“A terra em si é de muito bons ares, assim frios e temperados como os de Entre Douro e Minho, porque neste tempo de agora os achávamos como os de lá. Águas são muitas; infindas. E em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo, por bem das águas que tem”.

Pero Vaz de Caminha, 1º de maio de 1500

Leia a carta de Pero Vaz de Caminha ao rei de Portugal na íntegra clicando aqui.

Desse modo, quando os portugueses precisaram escolher um produto para ser a base da economia colonial, não houve erro. O solo no Brasil era fértil – Pero Vaz de Caminha já contava isso em sua carta ao Rei de Portugal, já em 1500. – o clima era favorável, o modo de produção da cana já era conhecido e não faltava espaço para as plantações. Do relato acima surgiria a expressão sobre nossa terra: “em se plantando tudo dá”.

COMO?

Resolvido o porquê, partimos agora para o como. A Cana era plantada no Brasil nos famosos engenhos de açúcar no formato dos plantations – grandes propriedades de terras que só possuíam uma única manufatura. Quem plantava, colhia, tratava e deixava pronta para a exportação? Os africanos escravizados. Na realidade, era uma cadeia muito bem sintetizada. Como falamos anteriormente, diferente do Pau-Brasil, a Cana-de-Açúcar necessitava de uma estrutura complexa por trás, vide as primeiras divisões de terras, as primeiras determinações de governantes e o início do tráfico negreiro. Assim, os engenhos de açúcar eram grandes fazendas com grande população morando por lá. Havia, claro, as hierarquias divididas e, por esse motivo, cada “empregado” tinha sua função muito bem definida.

Porém, há uma coisa que não está sendo dita por aqui: o açúcar no Brasil não chegava ao seu último estado de produção: isso era feito pelos holandeses. Assim como contamos sobre o Rum e o Gim, a Cana-de-Açúcar também fazia parte de um ciclo econômico entre Europa, África e América. Os holandeses compravam o açúcar produzido no Brasil de Portugal e com esse dinheiro os lusitanos conseguiam manter o sistema de mão-de-obra escrava, bem como a economia de suas colônias mundo afora.

O longo período de influência holandesa sobre os engenhos de açúcar no nordeste do país só chegaria ao fim em 1649, quando os senhores uniram forças aos portugueses para promover a expulsão da Holanda de todos os territórios ultramarinos ocupados pelos holandeses durante o período do domínio espanhol. O fato ficou conhecido como Batalha dos Guararapes e, além do nordeste do Brasil, foram desocupadas outras terras, como o litoral da Angola e o Timor Leste (Batalha dos Guararapes – Óleo sobre tela de Victor Meirelles)

CACHAÇA – A BEBIDA COM CARÁTER

Tudo começou a fluir. O açúcar era cada vez mais consumido – o que aumentava seu preço –, o Brasil crescia cada vez no campo populacional e econômico e Portugal se consolidava como uma potência global. Em certo momento, o açúcar se tornou tão valioso que funcionou como moeda de troca, principalmente no Oriente e na África. No continente africano, inclusive, o açúcar era trocado por homens e mulheres escravizados para serem transportados para as colônias portuguesas para plantar e produzir o mesmo açúcar. A ideia de ciclo aqui é muito clara – e cruel. Os cofres lusitanos cresceram exponencialmente graças a um sistema muito bem arquitetado.

Porém, em algum momento do século XVII a conta deixou de ser tão azul. Alguns anos antes dos portugueses coçarem a cabeça tentando pensar em soluções para salvar sua economia, foram os escravizados quem começaram a coçar as suas. Sendo “vítimas” de pingos do melaço de cana fermentado que caía dos tetos dos engenhos e dos alambiques, eles perceberam que aquilo ali não poderia ser descartado, mas sim apreciado. E qualquer semelhança desses pingos com o apelido “Pinga” não é meramente coincidência.

Ruínas de uma das usinas de beneficiamento de cana de açúcar mais antigas do Brasil, em Santos – SP. Foi construída por volta de 1534 sob o governo de Martim Afonso de Souza, sendo o terceiro mais antigo das Américas e o mais antigo exemplar remanescente. Passou a chamar-se Engenho São Jorge dos Erasmos quando Martim Afonso foi para as Índias e transferiu a propriedade a Erasmos Schetz e família (Wikimedia Commons – Rejane Sarmento)

Os escravizados começaram a perceber que aquilo ali era bom demais. Observaram, estudaram e se especializaram. Perceberam que a partir da fermentação do melaço de cana, após algumas semanas, um líquido cheiroso se formava. O nome? Cagaça. E então, foram à luta. Após alguns anos, adaptações, gírias e sotaques, um nome prevaleceu: Cachaça – a bebida com potencial interrompido. Essa é uma das versões mais divulgadas sobre a origem da aguardente brasileira.

Continue acompanhando o Clube do Barman. Em breve, publicaremos a segunda parte desta matéria.

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