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Fale Baixo! O surgimento dos Speakeasies durante a Lei Seca nos EUA

História

⍟ Viaje no tempo e conheça a atmosfera dos bares escondidos dos Estados Unidos durante a Era da Proibição

Bares ao redor do mundo estão adotando, cada vez mais, um estilo cosmopolita. A coquetelaria já não se limita por fronteiras espaciais ou temporais. O fenômeno da abertura e do sucesso de casas no estilo speakeasy, nos últimos anos, sustenta esta afirmação: os bares escondidos ao redor do planeta remetem ao período da Lei Seca norte-americana e recriam experiências vividas no início do século passado. A história dessas casas ilegais que hoje inspiram novos bares pelo mundo é lembrada nesta matéria especial do Clube do Barman.

A ORIGEM

O anúncio na porta de um comércio fazia uma ‘última chamada’ para a venda de bebidas antes do início da Lei Seca: “O tempo está ficando curto e nosso estoque também. Compre agora ou terá que viver sem. Bye & Bye”

Durante a Prohibition norte-americana (clique aqui para relembrar), que se estendeu entre 1920 e 1933, donos de estabelecimentos de venda de bebidas se viram privados da comercialização de spirits. O consumo de bebidas alcoólicas era mal visto e foi necessário que se criassem alternativas para que as libações continuassem neste período, não só em solo ianque, mas em outros países ao redor do globo.

Além dos saloons, costumeiramente fechados pela fiscalização, outra tendência aos poucos foi se consolidando: para dificultar a regulação, muitos passaram a procurar por espaços ocultos aos olhos da Lei para instalarem suas barras.

O descontraído pub Krazy Kat Klub, em Washington, tinha um espaço aberto e até casinha na árvore. Grafava-se de forma bem humorada na testeira da porta, parafraseando a Divina Comédia: “Deixai todo sabão, ó vós que entrais”, referindo-se à fama de seus frequentadores, quase sempre mal-cheirosos.
Alphonse Capone era o maioral do contrabando de bebidas em Chicago e fez fortuna ao fornecer para os bares ilegais da região – cerca de 10 mil – até ser pego por sonegar impostos, mas isto já havíamos aprendido com Raul Seixas. O fato é que cada região dos Estados Unidos era comandada por facções de gangsters, com chefes como Al Capone no comando. O esquema garantia o fornecimento de bebidas para os speakeasies.

Os donos destes locais eram, por vezes, ligados ao crime organizado, pois o fornecimento das bebidas seguia rotas e esquemas de logística já utilizados para outros produtos ‘frios’. Como os contrabandistas já tinham o ‘know-how’ do tráfico, acabaram por dominar a venda do álcool.

Alguns foram fechados após a prisão de ‘chefes’ do crime que os comandavam. Outros eram abastecidos por produtos artesanais, feitos por comerciantes locais ou pequenos produtores, donos dos pontos de venda. Cedo ou tarde, grande parte deles acabou sendo deflagrada também.

Os bares escondidos eram chamados ‘speakeasy’ (fale baixo, em inglês), pois qualquer movimento ou barulho além do normal poderia despertar a suspeita de atividade ilegal. O termo remonta à Inglaterra no século XIX, quando costumava-se rotular de ‘Speak Softly Shop’ as lojas de fachada que vendiam produtos contrabandeados. A expressão foi simplificada e amplamente utilizada durante o período da proibição americana para designar os bares ilegais.

Quando lembramos de cenas deste tipo, vistas em filmes antigos, corremos o risco de pensar que é apenas ficção. Mas esta era uma realidade para quem desejasse beber durante a Lei Seca.
O Hanky Panky é um exemplo de drink consumido durante a proibição: Proporções iguais de vermouth doce e gin e dois dashes de Fernet Branca. Outrora, gin de banheira. Hoje pode ser feito com um gin de excelência, como o Beefeater 24, com excelente procedência e botânicos impossíveis de ser encontrados nos EUA durante a Lei Seca.

OS DRINKS NOS SPEAKEASIES

A bebida servida nos speakeasies tinha uma qualidade que podia variar entre ótima e péssima, dependendo de quem a fornecia. Muitos produtores clandestinos utilizavam métodos estranhos para produzir os licores.

Outros se valiam de recursos parcos e pouco higiênicos. Usar banheiras para produzir gin era um exemplo de prática comum no período.

Uma garrafa de ‘gin não alcoólico’, da Era da Proibição, em homenagem ao azarão dos derbies, o cavalo Twenty Free. Fazer imitações de bebidas alcoólicas, mas sem o álcool, não infringia nenhuma lei.

Outra alternativa era tentar reproduzir as bebidas alcoólicas, só que sem o álcool. Isto é virtualmente impossível, mas não custava tentar e, além do mais, produzir um gin sem álcool não infringia nenhuma lei.

Isto provocou uma mudança sensível na maneira como as bebidas eram servidas.

 

Os clássicos celebravam o sabor do drink com pouca adição de ingredientes, dando destaque ao destilado, como nos cocktails, em que é feita apenas a mistura de água, açúcar e bitters.

Para mascarar o gosto da bebida ilegal, por vezes terrível, foi necessário reviver receitas já esquecidas ou criar novas, que tivessem ingredientes mais marcantes, cítricos, densos ou doces.

Açúcar, mel, limão, laranja, grenadine e outras frutas entravam em cena para deixar o sabor menos agradável do spirit em segundo plano, tornando a experiência mais palatável ao consumidor que visitava os bares proibidos.

Ainda havia no imaginário coletivo a ideia de que bebidas fortes estavam associadas à masculinidade. Estes drinks, mais suaves, eram chamados de ‘pansies’, isto é, ‘drinks femininos’.

Apesar de terem sido usados para suprir uma necessidade sensorial provocada pela má qualidade do álcool, passados os dias dos destilados de banheira, eles resistem até hoje, como o Bees Knees, o Hanky Panky, o Sidecar, o White Lady, entre muitos outros.

Crustar a borda do Sidecar com açúcar hoje pode ser até considerado démodé, mas no período da Lei Seca, tinha a função de melhorar o sabor do drink, que tem cognac em cerca de 50% de sua composição.

Pode-se afirmar com segurança que, se comparados aos daquela época, os drinks da proibição, quando executados da forma correta nos dias de hoje, podem ter uma média de qualidade superior, já que é possível conhecer com precisão a procedência dos insumos usados na produção.

Àqueles dias, mesmo as bebidas tidas como de boa procedência podiam ser falsificadas. Era difícil garantir que um spirit fosse, de fato, aquilo que se apresentava. Isto fazia com que a qualidade do drink variasse muito, dependendo de onde provinha cada ingredientes.

Hoje podemos produzi-los com a segurança de termos um bom produto em mãos e que os rótulos condizem com o conteúdo das garrafas, favorecendo a padronização da produção.

Localizado no Hotel Belvedere, em Baltimore, The Owl Bar tem seu nome inspirado na coruja falsa da fachada que, durante a Proibição, piscaria para sinalizar aos frequentadores que as remessas de bebidas tinham chegado  e que era seguro para visitar o bar. Hoje, muitas das características de 100 anos de idade permanecem, desde a entrada de madeira esculpida até a própria coruja. The Owl Bar tem uma lista de seleção clássica de drinks comuns no período da proibição.
A porta usada no Chumley’s, em West Village, Nova York. Nela, é possível notar a presença de um postigo grande e outro menor no alto. Por meio delas, o segurança podia controlar a entrada de clientes e perguntar a senha. Parece coisa de filme, mas está lá e é usada até hoje.

OS LOCAIS

Porões e até mesmo cavernas se tornaram pontos de encontro e consumo. Para entrar, era comum passar por seguranças, que encaravam quem solicitava entrada por meio de um postigo (uma pequena janela na porta) e requisitavam uma senha.

Apesar do ar de ilegalidade e a iminência de uma deflagração, sair para beber ‘às escondidas’ tinha seu lado positivo. Pessoas que dificilmente se encontrariam à luz do dia passaram a ter um convívio social mais estreito. Antes da proibição, ainda havia um resquício de racismo herdado dos séculos anteriores e as mulheres eram praticamente proibidas de frequentar bares. Com o advento dos speakeasies, negros, brancos, homens e mulheres passaram a compartilhar os mesmos lugares para se divertirem.

O speakeasy era, normalmente, instalado em uma parte oculta do estabelecimento. Às vezes não havia nenhum tipo de relação entre o comércio ‘oficial’ e o clandestino. Muitos ficavam nos fundos ou no subterrâneo de farmácias, lojas de variedades ou mercearias. Para se ter uma ideia do alcance da prática ilegal, segundo o “The Historical Dictionary of the 1920”, em 1929, apenas na cidade de Nova Iorque, o número de speakeasies girava em torno de 32 mil.

O Chumley’s em 2013, ainda com a decoração antiga. O bar foi fechado naquele ano para reformas após o desmoronamento da chaminé e reabriu com um visual mais requintado, mas a atmosfera permanece.

No início, a ideia era tímida e os primeiros bares ilegais tinham dimensões modestas, além de não oferecerem nada além de bebidas.

Como afirma Daniel Okrent, no livro ‘Last Call: The Rise and Fall of Prohibition’, “não era preciso muito mais que uma garrafa e duas cadeiras para montar um speakeasy“.

Com as falhas da fiscalização, a confiança dos comerciantes ilegais aumentou e o investimento neste tipo de negócio também.

Em pouco tempo, era possível frequentar speakeasies que tinham estruturas de verdadeiros clubes, com bandas ao vivo, multidões, drinks variados e espaços grandiosos e ricamente decorados.

Após a reforma, o antigo speakeasy de West Village ganhou em elegância, mas o clima da proibição permanece.

Muitos permanecem secretos ainda hoje, outros operam ininterruptamente desde aquela época.

E se depender da tendência, muitos outros ainda serão inaugurados nos próximos anos.

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