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Gin Craze: A loucura do gin na Inglaterra dos séculos XVII e XVIII

História
gin craze

⍟ Um dos destilados mais consumidos hoje ao redor do mundo causou um problema federal, ou melhor, imperial, na Inglaterra. Conheça uma das maiores crises da história provocadas pela bebida e como ela chegou ao fim

A ‘virtude está no meio’, ensinava Aristóteles. Tanto a escassez quanto o excesso causam danos semelhantes e hoje você tomará parte em um dos mais graves casos de excesso da história com um protagonista que conhecemos bem: o gin.

A partir de 1689, o destilado acabou tomando o espaço do brandy, uma das bebidas mais consumidas até então em terras inglesas. Isto porque a antipatia entre a Inglaterra e o maior fornecedor de brandy, a França, teve seu reflexo na legislação, fazendo com que as taxas dos produtos franceses se tornassem muito altas para que o povo adquirisse a bebida com a mesma frequência.

Por outro lado, a produção interna de gin foi encorajada na época, com redução de taxas de destilação e afrouxamento na fiscalização dos produtores, chegando até mesmo a permitir sua produção sem qualquer tipo de licença. Na verdade, qualquer inglês poderia destilar qualquer coisa que chamasse de gin desde que pagasse uma pequena taxa. Outro fator que colaborou no incremento de produção foi o fato de a Inglaterra possuir, à época, várias colônias com plantações de grãos, matéria-prima do álcool usado no gin, o que tornava sua confecção muito barata.

Os problemas diplomáticos entre França e Inglaterra se estenderam por séculos. Na Imagem, a Batalha de Waterloo, na qual ingleses e prussianos derrotaram o exército francês de Napoleão em 1815.

Enquanto os produtores poderiam abrir qualquer pequena espelunca apenas para fazer o serviço de destilação e engarrafamento, os produtores de cerveja estavam limitados pela lei, que obrigava os estabelecimentos de produção e venda também a servirem alimentos e oferecerem serviços de hospedagem.

O barateamento de produção e as medidas protecionistas do governo inglês foram as principais causas para o caos que se instalou a seguir. Economistas como Charles Davenant e Daniel Defoe, entre outros, acreditavam que a destilação do gin seria um pilar da prosperidade britânica e ajudaria no equilíbrio da economia inglesa.

Passados pouco mais de dez anos, os economistas que apoiaram as mudanças na lei já haviam voltado atrás em suas opiniões, após verificarem os efeitos sociais causados por elas. 40 anos mais tarde, o inglês médio consumia 950 ml de gin por semana. Infelizmente, a inércia do problema só permitiria que a tragédia se amenizasse mais de um século depois.

The Gin Shop, de Cruikshank, retrata uma venda de gin como um local gerido pela morte, que prepara uma armadilha para seus clientes.

GIN LANE

Meio século após o início da chamada Gin Craze, em 1751, William Hogart, um artista e chargista inglês, desenhou um cenário crítico do período que a Inglaterra enfrentava. Na época, os pensadores e políticos ingleses começaram a preferir o ‘mal menor’. O Gin Lane (algo como ‘Alameda do gin‘) é uma ilustração que mostra o colapso da sociedade por causa do destilado. Mas o desenho veio em par: o gêmeo é um cenário que exalta as qualidades de uma sociedade que consome cerveja, chamado de Beer Street (Rua da cerveja). O retrato da situação descrito no Gin Lane é tão preciso que nos ajudará a entender tudo o que foi provocado pelos excessos da bebida.

No rodapé da ilustração, uma poesia que descreve a maneira como o gin era visto no auge da loucura causada por ele mesmo. Abaixo, uma versão em português traduzida por nossos poetas de plantão do Clube do Barman:

poema gin crazeA Alameda do Gin

Gin, demônio maldito, que furioso,
a humanidade te empenhas em caçar;
Tu, que entras, por um gole mortuoso,
queres as vidas do corpos arrancar.

Da virtude e a verdade aos desesperos,
Fúria que nos joga na profundidade.
Mas estimas e com infernais esmeros,
todo o roubo, o assassinato, a falsidade

Copo mau! Tu escravizas os viventes,
com líquido que por dentro fogo ateias.
Tu fazes dos corações pobres dementes
Tão logo corre apressado pelas veias

 Sr. Miséria – Loja de penhores

O dono do negócio avalia objetos de duas pessoas, dispostas a conseguirem alguns trocados para o gin. O carpinteiro vai penhorar seu serrote e a cozinheira, suas panelas. As pessoas inviabilizavam até mesmo seu ganha-pão, vendendo ferramentas fundamentais para seus próprios trabalhos para comprarem gin.

 A bêbada prostituída

Uma mulher no primeiro plano com trajes imodestos para a época indica que adotara o ofício da prostituição para conseguir seu dinheiro para sustentar o vício. Sua pernas estão cheias de feridas, o que indica que ela possa ter contraído sífilis com algum de seus clientes. Um filho pequeno cai de seus braços para despencar no final da escadaria, para simbolizar a perda de laços com os familiares e a falta de cuidado com os que estariam sob sua tutela.

O semblante ébrio denota a indolência causada pelo excesso e a lata de rapé nas mãos sugere que este vício poderia dar origem a outros. O caso não é tão inimaginável. Outro ainda mais vil de fato aconteceu: em 1734, Judith Dufour conseguiu resgatar seu filho de dois anos de um orfanato para onde havia sido levado para impedir que continuasse com a mãe. Pouco depois, Judith estrangulou a criança para pegar as roupas que havia ganhado no orfanato e vendê-las para comprar mais gin. Muitos outros casos de abandono infantil e violência contra menores causados pela embriaguez de gin foram registrados no período.

 A adega de gin

Na porta da venda, uma inscrição:
Gin Royal
Bêbado por 1 penny
Mortalmente bêbado por 2 pences
Palha limpa por nada

Era mais barato ficar ‘louco de gin‘ do que comprar comida, por exemplo. A palha era oferecida de graça para que os clientes ‘desmaiassem’ em lugar macio.

 O lunático empalador

Um bêbado cambaleante caminha pela rua batendo com um fole na cabeça enquanto segura um grande espeto com uma criança empalada. A mãe da criança aparece saindo da casa enquanto grita, aterrorizada.

Mais do que deixar bêbado, o excesso de consumo do gin (cerca de um litro por semana) causa alterações cognitivas, fazendo o viciado ficar realmente louco.

 O barbeiro suicida

Por entre os escombros de sua barbearia, fechada porque ninguém mais cortava os cabelos ou fazia as barbas, num gesto desesperado se enforca em uma das vigas da construção em ruínas.

O vício colocava em segundo plano qualquer atenção mínima com a aparência, cuidados pessoais básicos ou mesmo com a própria saúde.

 O depósito da destilaria

Para adquirir uma quantidade maior de gin por menos, havia quem comprasse o spirit em barris. Na imagem, o galpão da destilaria ‘Kilman’, nome próprio que, em inglês é a junção das palavras ‘kill’ e ‘man’, ou seja, ‘Mata homem’.

Uma critica aos distiladores que, apesar de verem o mal que causavam, continuavam sua produção simplesmente visando lucro.

 Mãe maluca

Uma mãe no canto da imagem segura seu filho de colo enquanto entorna um cálice de gin para dentro da garganta da criança.

O destilado era tido como um tônico, capaz de abrir o apetite e também usado como calmante. Desta forma, a criança ficaria menos chorosa enquanto a mãe poderia continuar enchendo a cara sem ser perturbada pela prole.

 Crianças

Em meio a confusão, duas meninas com uniforme escolar matam aula para beberem gin. Tendo sido já criadas em uma sociedade imersa em álcool, as crianças já estavam habituadas com o consumo de bebida alcoólica e o faziam de forma recreativa.

Hoje sabemos que o consumo de álcool na infância causa danos irreversíveis no cérebro.

 Remédio

Um doente está sendo carregado em um carrinho de mão, enquanto uma mulher dá-lhe gin. A bebida alcoólica era considerada não só como tônico e calmante, mas como um elixir para curar os mais variados males.

Por isso, os abusos no consumo muitas vezes eram atribuídos à ideia de que beber ajudaria a recuperar a saúde já perdida anteriormente por causa do mesmo álcool.

 Larga do osso

Os bêbados pobres e famintos que, despidos de quaisquer pudores ou senso crítico, passam a disputar, por desespero, o osso mastigados pelo cão de rua.

Uma sociedade empobrecida e desnorteada perde os parâmetros mínimos de asseio. Outro detalhe é o caramujo em frente aos homens. Qualquer fio de consciência os colocaria longe do vetor de doenças.

 A defunta e o órfão

Muitas mulheres morriam em consequência do vício, deixando crianças pequenas. Um sentinela observa enquanto homens colocam o corpo de uma mulher no caixão. Ao lado dele, o filho da morta permanece esperneando. Essas crianças acabavam sendo enviadas para orfanatos, muitas não conseguiam nova família e, logo que alcançavam a adolescência, caiam nas ruas.

 O jornaleiro

Uma figura esquelética e aparentemente morta de fome exibe, em sua cesta, um jornal moralizante não vendido sobre os males do consumo de gin.

Apesar disso, carrega dentro da mesma cesta uma garrafa e, embora desacordado, sustenta um copo por entre os dedos. Se, de fato, está morto, certamente morreu bebendo.

OS GIN ACTS

Além da publicidade estatal feita a respeito dos riscos para a saúde provocados pelo excesso do consumo do álcool, o governo britânico iniciou um movimento de retorno, na tentativa de estancar os males provenientes do vício. A partir de 1729, o Parlamento inglês começou a publicar atos de governo visando o maior controle sobre o consumo de gin.

Além do publicado em 1729, que incluía uma taxa 5 shillings por galão para venda no varejo, outros passaram a ter vigência: em 1736, um novo Gin Act fazia a taxa por galão no varejo passar de 5 para 20 shillings, além do acréscimo de uma taxa anual de £50 (em valores atualizados, o equivalente a cerca de R$33.810) para todos os vendedores de gin. Isto já começava a inviabilizar a subsistência de pequenos produtores, mas a lei não impediu a produção doméstica, que cada vez mais era livre para destilar todo tipo de porcaria. Nesta época muitos produtores continuaram produzindo a bebida irregularmente.

Homens e mulheres, ricos e pobres compartilham do mesmo ambiente em uma Gin Shop.

A publicação do ato de 1736 causou uma revolta na Inglaterra que culminou, em 1943, com um novo Gin Act, promulgando um relaxamento na taxação imposta pelo ato de 1936. Os números de produção e consumo subiram até o édito de mais um Gin Act, em 1751. O ato em si facilitava ainda mais as condições para a venda do gin, mas o grande freio da loucura do gin veio por outras leis: as da natureza. Safras de grãos pobres tornaram o preço da matéria-prima alto o suficiente para fazer com que muitas destilarias desistissem de produzir gin.

A produção diminuiu gradualmente, até que, em 1757, finalmente, despencou vertiginosamente. Durante um período após a extinção do gin pela ausência dos grãos, essenciais para a produção do álcool base no qual se infusiona o zimbro e outros botânicos, o governo chegou a editar uma lei proibindo a produção de bebidas alcoólicas em território inglês para assegurar que o pesadelo nunca mais seria revivido. O gin voltaria a figurar na Inglaterra apenas na Era Vitoriana, mais de 80 anos depois da Gin Craze.

DE QUALIDADE DISCUTÍVEL PARA PRODUÇÃO COM EXCELÊNCIA

À época dos fatos, qualquer coisa destilada poderia ser chamada de gin, dada a completa ausência de uma legislação que impusesse condições mínimas de produção e de uso de ingredientes. Hoje, séculos distantes da ‘febre do gin’, a realidade da produção de bebidas alcoólicas mudou drasticamente. Em parte pela legislação sobre o álcool  e outras diretrizes sanitárias presentes em praticamente todos os países. E por outro lado, a busca pela perfeição do produto como diferencial ante os concorrentes. Isto fez com que o panorama do consumo também se transformasse completamente.

Hoje em dia, o gin é tão bem feito que uma destilaria vira até ponto turístico. Na imagem, a distilaria de Beefeater.

Ao passo que à época o gin tornou-se um vício a ser suprido por qualquer porcaria engarrafada, o que percebemos hoje é que, cada vez mais, o consumidor de bebidas busca outros fatores muito além daqueles buscados na Gin Craze. Além da qualidade, a experiência criada no consumo do produto e seus diferenciais também têm sido fundamentais para a mudança do foco do consumidor final.

CONSUMO RESPONSÁVEL

É bem claro mas não custa reforçar: Esta matéria tem viés meramente informativo. O Clube do Barman e a Pernod Ricard Brasil defendem o consumo responsável de bebidas alcoólicas para pessoas maiores de 18 anos. As bebidas alcoólicas podem causar dependência química e, em excesso, provocam graves males à saúde e à sociedade, como a própria história nos mostra. E por tomar estes fatos como exemplos do que não deve ser feito, a indústria de bebidas, cada vez mais, tem se preocupado em minimizar os estragos causados pelo consumo de álcool, promovendo iniciativas educacionais visando alertar o consumidor sobre os riscos do excesso.

Também é trabalho do profissional de bar que lida com o público ser um reverberador do consumo responsável. Recentemente publicamos uma matéria sobre esse assunto com algumas ideias para aplicar no seu bar, confere lá:

O que o Dia Mundial Sem Carro tem a ver com você, bartender?

 

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