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Antes e depois da geladeira: um marco da modernidade para a coquetelaria

História

⍟ Já parou pra pensar que não existia geladeira no Brasil até outro dia? Faça uma pequena viagem no tempo conosco e descubra como esse importante equipamento presente em todos os bares é recente. Depois de ler, você verá o eletro com outros olhos.

Publicado em 16 de outubro de 2018, às 11 horas.

Qualquer bar hoje em dia, por mais simples que seja, tem uma geladeira e um freezer à disposição. Mais do que um mero capricho, não é possível imaginar um bar em em funcionamento sem um destes eletrodomésticos. Essa, como outras facilidades da vida pós-moderna, são tão cotidianas que nem nos damos conta do quanto simplificam nossa vida e geram bem-estar.

meme 'como preparar gelo caseiro'
A ‘Memelândia já cuidou de mostrar como é difícil fazer gelo nos dias de hoje.

Produzir gelo é algo tão ‘bobo’ atualmente que na internet encontramos até memes com tutoriais explicando como fazê-lo em casa.

Mas já parou para pensar como o mundo vivia antes da invenção dos refrigeradores e como era difícil conseguir congelar água (ou ao menos mantê-la congelada), sobretudo em lugares quentes, justamente onde o gelo faz toda a diferença?

Muitos dos antigos que ainda hoje vivem são testemunhas oculares de uma época em que não havia coisas das mais corriqueiras, como micro-ondas, televisão e geladeira. Hoje você vai entender um pouco sobre a evolução da fantástica tecnologia que conserva alimentos, esfria e até congela água (!).

NAS CAVERNAS

Antes da invenção do refrigerador, só via gelo quem morava em locais onde o inverno é frio, pois costumava-se, nesta época do ano, aproveitar a baixa temperatura para recolher o gelo produzido naturalmente em lagos e rios e armazená-lo em cavernas, cobrindo-o com o melhor material térmico disponível – palha -, para manter a temperatura o máximo de tempo, estendendo a durabilidade do gelo para além das estações frias. Há registros desta prática na China e no império romano, já no baixo medievo.

antiga casa de gelo subterrânea
A ‘geladeira’ de antigamente. As casas de gelo armazenavam todo o gelo a ser vendido por um longo período

CASAS DE GELO

Na alta idade média tornou-se costume expor água em lajes durante a estação fria, cortar o gelo formado em blocos e armazená-los nas chamadas ‘casas de gelo’, que consistiam em construções semi-subterrâneas de paredes grossas, responsáveis pelo retardo do derretimento, fazendo com que durassem praticamente o ano inteiro enquanto armazenados.

ice box da época vitoriana
Uma Ice Box vitoriana de 1880. Fonte.

Essa prática era bastante comum na Europa e no restante do hemisfério norte, lugares em que, comumente, o ambiente chega a 0°C em determinadas épocas do ano. Sabemos que esta é a temperatura de congelamento da água em níveis normais de pressão.

Os blocos eram comprados nas casas de gelo e funcionavam como o ‘coração’ dos ‘refrigeradores’ da época, chamados ‘ice box‘ ou armários de gelo, que eram móveis de madeira revestidos internamente de cortiça, material térmico que mantinha a baixa temperatura por mais tempo, destinada ao armazenamento de alimentos perecíveis.

O INÍCIO DA REFRIGERAÇÃO

Muitos foram os cientistas que se debruçaram sobre a ideia de poder criar gelo sem depender das estações frias. A criação de máquinas que pudessem tanto criar gelo quanto manter alimentos sob refrigeração seria crucial para declarar a independência do clima e levar o frio até mesmo para lugares quentes do mundo.

A partir do século XVIII, experiências começaram a surgir de diferentes partes do mundo, concentradas, em sua maior parte, na Europa e nos Estados Unidos. O pioneiro nos estudos sobre os efeitos do vácuo em gases foi o físico William Cullen, considerado o pioneiro na refrigeração artificial. Ele criou, em 1748, um sistema que resfriava diethyl éter, levando-o ao ponto de fervura, por meio de uma máquina de vácuo. Oliver Evans publicou estudos teóricos em 1805, contudo nunca chegou a construir uma máquina com base em seus estudos. O inglês Michael Faraday, em 1820, conseguiu criar um sistema semelhante ao de Cullen usando gás amônia.

Em 1835, Jacob Perkins deu continuidade aos estudos de Evans e patenteou, com base neles, o ciclo de refrigeração por vapor gerado por compressão. Isso rendeu a ele o título de ‘Pai da Refrigeração.

A máquina de gelo de Gorie

Em 1851, o médico caribenho radicado nos EUA, John Gorie, que havia abandonado a medicina alguns anos antes para se dedicar à exploração da refrigeração, consegue criar e patentear a primeira máquina de gelo.

Infelizmente ele não pôde levar seus estudos adiante por muito tempo, pois seu financiador e sócio faleceu. John morreu na pobreza mas, ao menos, deu-nos o legado do gelo produzido artificialmente.

O PRIMEIRO REFRIGERADOR

O primeiro sistema de refrigeração consolidado foi construído pelo australiano James Harrison, em 1856, para suprir a necessidade de resfriamento em uma indústria de cervejas e era movida por um compressor a vapor.

entregador transportando um grande bloco de gelo
Entregador de gelo

Em seguida, o sistema foi reproduzido em uma outra fábrica, de carne processada. Depois destes dois grandes equipamentos, fábricas em diferentes lugares começaram a construir geladeiras para diversos fins, como transporte de alimentos  e indústria.

Com o advento do gelo e e dos princípios de refrigeração, em 1857, foi criado o primeiro vagão de trem refrigerado por blocos de gelo para transportar de carnes, em Chicago. Pouco depois o sistema foi também adaptado para o transporte de frutas e verduras.

Fábricas de gelo começaram a fornecer blocos grandes para residências e, cada vez mais, as ‘Casas de Gelo’ se tornaram obsoletas, pois fabricar gelo na hora era bem mais simples do que coletar e armazenar durante um ano inteiro.

Até então a produção era restrita à fábricas que tinham espaço suficiente para abrigar o maquinário de refrigeração e, utilizando esse sistema de geladeira alimentada por bloco de gelo, o consumo médio de um americano em 1880 era de cerca de uma tonelada por ano.

SEM GELO NOS  TRÓPICOS

Em países tropicais, por motivos óbvios, não há registros sobre casas de gelo no período que antecede a invenção do refrigerador. Até antes do advento desta tecnologia, o método mais utilizado para a conservação de alimentos era a salga.

De tempos imemoriais, o uso do sal na conservação deu origem a alimentos que temos até hoje, como a carne seca, o bacalhau e outras iguarias não indicadas para hipertensos.

O alimento era coberto por sal e exposto ao sol – daí o nome ‘carne-de-sol’ -, e então tinha sua durabilidade estendida por um período mais ou menos longo em temperatura ambiente.

No final do século XIX, começaram a se instalar as primeira fábricas de gelo no Brasil, para alimentar os armários de gelo de residências que tinham condições de adquirir periodicamente esta, até então, raridade.

carne de sol
Carne secando ao sol. No brasil, além de ‘carne-seca’, também é chamada de charque e jabá
Geladeira domelre
A primeira geladeira elétrica: Domelre, de 1913

PRIMÓRDIOS DA GELADEIRA DOMÉSTICA

Apenas 57 anos depois do primeiro refrigerador, em 1913, foi criada a geladeira elétrica doméstica, a Domelre. O gelo, então, deixava de ser um monopólio da indústria e passava a ser produzido dentro de casa, em pequena escala.

Os grandes blocos também começavam a ser substituídos pela geladeira. Seu uso se popularizou em primeiro lugar nos Estados Unidos, alguns anos após sua invenção, com a fabricação da Monitor-Top da General Electrics e da Kelvinator, com um formato mais próximo das geladeiras atuais.

Em meados dos anos 50, a Kelvinator mostrava que não estava para brincadeira no pioneirismo da refrigeração elétrica, chegando até mesmo a criar modelos gigantes, como a Foodarama, de 1953.

geladeira Foodarama
Uma Kelvinator Foodarama, de 1953. Fonte

GELADEIRA A QUEROSENE

Outro tipo de refrigerador que começou a ser fabricado em larga escala na década de 20, era movido a querosene. Uma chama na parte de baixo da geladeira tocava o encanamento por onde corria amônia, fazia com que ela evaporasse, corresse pelo sistema, se condensasse na parte de cima do equipamento e descesse em ebulição (a amônia entra em ebulição a -33,34 °C), resfriando o interior da geladeira.

GELADEIRA NO BRASIL

O primeiro refrigerador construído no Brasil foi feito em Brusque (SC) no ano de 1947, por Rudolf Stutzer, e era movido a querosene. Stutzer que, entre outras coisas, foi chofer do cônsul Carlos Renaux, abriu com o patrocínio financeiro de seu antigo chefe uma fábrica, chamada Cônsul, onde se fabricava, além de anzóis, diversos tipos de peças de metal. No início dos anos 40, inaugurou também uma fábrica de gelo.

geladeira cônsul
A primeira geladeira construída pela Consul, modelo Q-300

Ao se deparar com uma geladeira americana movida a querosene em uma loja, se encantou e tentou reproduzi-la em sua oficina. O equipamento ficou pronto depois de uma mês e a notícia logo se espalhou.  Entre 1947 e 1950, já tinham fabricado 31 aparelhos na cidade. Wittich Freitag, um comerciante catarinense, o convenceu a montar uma fábrica.

Junto de Guilherme Holderegger é fechada a sociedade e, em 1950, entra em operação a Cônsul, primeira fábrica de refrigeradores do Brasil, em Joinville (SC). Pouco depois a fábrica passou também a produzir modelos elétricos.

REFLEXOS DA REFRIGERAÇÃO NA COQUETELARIA

Certamente, neste ponto, você já começou a traçar paralelos temporais entre o invento e a evolução da coquetelaria.

Como vimos na trajetória acima, o hemisfério norte já utilizava gelo antes mesmo da descoberta da energia elétrica, de modo particular na Europa, onde desde há muito tempo o recurso natural existia em abundância na estação fria.

O uso do gelo no resfriamento de bebidas, no Velho Mundo, acontecia antes mesmo que o Brasil fosse descoberto. Na Europa temos uma coquetelaria moderna antiga e consolidada, que desde o século XIX, ou seja, desde seu início, praticamente não se faz nada sem gelo.

Os norte-americanos, por sua vez, foram pioneiros na massificação da produção de refrigeradores no século XIX, mas também têm estação fria, por isso sempre estiveram familiarizados com a existência do gelo.

Já o Brasil, que deu um pontapé inicial na produção de refrigeradores apenas no final dos anos 40 tem, em sua coquetelaria, um reservatório de drinks  históricos, como a consertada (Brasil colonial), Pinga com Mel e Limão (anos 10¹),  Rabo de Galo (anos 50²), Maria Mole (anos 50), entre outros que, quando criados, foram pensados em temperatura ambiente.

¹ A Pinga com mel e limão era considerada um remédio para o combate da gripe espanhola na primeira década do século 20.

² O Rabo de Galo foi uma receita criada por uma empresa de vermutes de donos italianos que visavam atingir um público maior do que o de seus conterrâneos. Por isso, decidiu misturar cachaça a seu produto, dando orgiem ao Rabo de Galo.

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